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Estorias Pequenas de Gente Grande por Adalino Cabral, Ph. D.

Maneira de Ser... Vietname em pdf Camarada

Partida...
A Odisseia Emigrante de
uma Família Açoriana
por

Adalino Cabral
 


Manuel e Olivia - 1954
Oliverio, Idalino, Jeremias
Dortina e Maria Olivia

        Há um velho ditado francês que toca no âmago da alma que parte da alma do emigrante: “Dire adieu c’est mourir un peu”, ou seja, “Partir é morrer um pouco”. Porém, para emigrar e para se morrer está muito, muitíssimo além da imaginação. E agora a estória será contada... A estória verdadeira da experiência da partida, viagem e chegada de uma família açoriana cujas vidas mudaram para sempre após terem deixado os Açores para além do mar no dia 15 de Janeiro de 1954, há cinquenta anos...

Éramos mesmo paupérrimos - casa com chão de terra batida, sem água corrente, sem quarto de banho, electricidade, gás... Nem sapatos. Nunca tivemos sapatos nos Açores. Éramos possuidores de um par de tamancos grandes usados por toda a família quando precisávamos de ir à retrete lá fora durante as noites mais frias. Contudo, sempre havia um penico debaixo da cama para necessidades mais leves.

Às duas ou três da madrugada sempre acordávamos as galinhas e os porcos que se encontravam dentro de uma vedação de pedras chãs e altas, à volta da parede da retrete. Daí as fezes caíam através de um buraco que dava para uma outra abertura no chiqueiro. A sanita não era nada como aquelas da América. Encontrava-se dentro de uma casinha pequena feita de pedra com um nicho, tipo “altar”, mas sem lugar para nos sentarmos. Era preciso subir ao “altar” e então acocorar-se para obrar através de um buraco pequeno e quadrado. Papel higiénico? Não havia! O papel era escasso e caro. Mas havia milho e não faltava folhelho...

Rezava-se. Era essa a esperança. Ainda podemos ouvir o bom Padre Francisco Silva com os seus sermões na igreja de Santa Ana ali perto, na Feteira Pequena. Foi ele quem casou Manuel e Olívia e baptizou Oliverio Manuel, Maria Olívia, Idalino, Dortina e Jeremias.

Todos os filhos foram concebidos e dados à luz na mesma cama, sob o mesmo tecto na Rua do Rocha (antiga Rua do Lombo), número 20, Feteira Grande. Embora a emigração tenha acontecido há cinquenta anos, tudo se recorda como se fosse aqui e agora. Era o dia 10 de Janeiro de 1954.

De manhãzinha, tão cedo ainda escuro lá fora, as cinco crianças foram acordadas após uma típica noite mal dormida em camas mornas com colchão de folhelho - uma para as duas raparigas, uma para os três rapazes e uma para os pais. A nossa mãe, Olívia, encontrava-se nos Estados Unidos havia dois anos - inicialmente residindo com familiares na Rua Morgan, número 7, em Fairhaven, Massachusetts.

Da Morgan, ela caminhava para e de New Bedford, atravessando a velha ponte verde de Fairhaven, na Rua Coggeshal, para ambos os seus empregos - fábricas de roupas - dia e noite, chuva ou sol, neve ou gelo, calor ou frio - para trás e para diante...

Convencida de que ia melhorar a vida, decidiu com Manuel que ela, como a única qualificada legalmente para o fazer, emigraria para a América. Dinheiro? Não havia, e todo quanto era preciso para a viagem de Olívia teve que ser pedido emprestado. Foi uma experiência muito difícil deixar atrás marido e cinco filhos jovens. Contudo, sentia-se esperançada de que a família em breve se poderia reunir a ela nos Estados Unidos.

Olívia tinha nascido na América, a 4 de Dezembro de 1920, na Rua Blackburn, no sul de New Bedford, rua lateral a County, perto da Rua Rivet. Era, pois, americana por nascimento.

Após terem casado em São Miguel, os jovens pais de Olívia, Clemente Francisco Resendes e Maria Canastra Nogueira, tentaram melhorar as suas vidas. Porém, a situação económica nos Estados Unidos não estava nada bem. A Depressão rondava a porta, a piorar, e então eles decidiram regressar ao seu pequeno bocado de terra na Feteira Grande, onde, pelo menos, podiam cultivá-lo para sustentar uma família que chegou a 14.

O nosso pai, Manuel, nascido em São Miguel a 15 de Agosto de 1917, falecido a 22 de Dezembro de 2001, em Fairhaven, e sepultado no cemitério de São João, em New Bedford, só teve umas seis semanas de escolaridade, mas resultou ser óptimo professor na, e da, vida para todos nós. Após a nossa mãe ter emigrado para a América a 5 de Janeiro de 1952, a vida tornou-se bastante difícil para ele, já que não era nada fácil ter que trabalhar nas terras e cuidar de cinco crianças, o mais velho, Oliverio, com dez anos e Jeremias, o bebé, com dois.

Agora era altura de todos se prepararem para se juntarem a Olívia. Não havia sapatos? Para irmos para a América precisávamos de sapatos. Mas já que a nossa mãe estava em New Bedford não haveria problema. Ela escreveu ao nosso pai, e a Tia Lucília leu e respondeu o que era preciso. Tratava-se simplesmente de uma questão de medir os pés de cada garoto com fios, cortá-los ao tamanho apropriado, atar os pares juntinhos e enviá-los num envelope para a América. E assim foi. Umas semanas depois, todos tinham sapatos pela primeira vez! Nunca tínhamos calçado sapatos. Fantástico! Agora nós íamos para a América...

Bem cedo de madrugada, por volta das três, nem se podia falar alto... Todos a sussurrar. Não queríamos acordar a vizinhança. Queríamos partir sem cerimónias. Havia um certo nervosismo curioso no ar na atitude de todos. A Avó Nogueira e a Tia Lucília, que moravam logo ali ao lado, estavam em nossa casa, ajudando-nos nos preparativos da partida. Confusos com aquilo tudo, precisando de nos lavarmos bem lavadinhos, vestindo a roupa de Domingo (e não era Domingo!)... era tudo demais. As crianças queriam saber o que estava a acontecer e perguntaram ao pai. A resposta, em voz tão sussurradinha, foi: “Vamos para a América!” Em breve, foram abraços e beijos e lágrimas... Ninguém sabia que íamos partir nessa altura, mas a Tia Ludevina, do outro lado da rua, viu luz acesa, suspeitou algo e foi lá ter pouco antes de partirmos. Ela também nos abraçou e beijou e chorou, como a Avó Nogueira e a Tia Lucília...

Saímos da Feteira Grande por volta das quatro e meia da manhã e fomos a pé para a Feteira Pequena. Daí, a camioneta levou-nos até Lomba da Maia, onde, à espera da camioneta da tarde para Ponta Delgada, ficámos em casa dos amigos Mariano e Maria José Leite. Partimos então para a “cidade”, ou seja, Ponta Delgada, lugar nunca antes visitado pelas crianças. Ao cabo de muito tempo, a camioneta finalmente entrou numa garagem grande. Ainda podemos recordar o cheiro daquele fedorento óleo diesel que vinha do tubo de escape do veículo durante a viagem. Dentro da garagem, era ainda muito pior...

Devido a demoras, tivemos que ficar alojados em Ponta Delgada por uns dias. Estivemos com uma família conhecida da Avó Nogueira na casa dos senhores Luís e Elvira Carvalho, na Rua da Mãe de Deus, ali perto do Jardim da Cidade. O jardim tinha algo que nunca tínhamos visto: um grande lago de pedra e cimento contendo peixes dourados. Essa foi a primeiríssima vez que vimos lâmpadas eléctricas e peixes dourados num lago. Na Feteira, tínhamos apenas candeeiros de petróleo. E, regra geral, comíamos chicharros ou sardinhas. Nunca eram da cor do ouro...

Era de dia quando, a 13 de Janeiro de 1954, em Rabo de Peixe, abordámos a avioneta de oito passageiros da SATA para atravessarmos o mar com destino a Santa Maria. Foi meia-hora de aventura naquela viagem aérea da ilha Verde até à ilha de Gonçalo Velho Cabral..

A nossa Maria encontrava-se petrificada de medo. Não parava de berrar. A Dortina, por outro lado, tornou-se palidíssima, mas não levou muito tempo para que se juntasse às melodias do coro de Maria. O bébé Jeremias agarrava-se com toda a força ao pescoço do pai e tremia a sério. Nunca chorou! Oliverio e Idalino, embora pálidos e cheios de medo, deliciavam-se com a aventura sem comparação, especialmente quando a avioneta virava ora para a direita, ora para a esquerda, e se via pelas janelas aquele grande mar lá em baixo. O pai sempre sério, cara de preocupado. Naturalmente, todos nós temíamos o desconhecido...

Finalmente chegámos e tivemos que esperar ainda mais tempo perto do aeroporto de Santa Maria, construído pelos americanos poucos anos antes. Dormimos numa pensão. E então, bem de noite, cerca da uma no dia 15, um grande carro preto levou-nos ao terminal do aeroporto. Não era muito longe. Em breve estaríamos a bordo daquele grande avião Constellation da TWA, um monstro de quatro hélices. Tremíamos de tanto medo e também da frialdade daquele embarque às duas da manhã de um Inverno açoriano, em pleno Janeiro.

Nunca na nossa vida tínhamos entrado num avião daqueles, nem tampouco visto um em terra ou no ar, grande ou pequeno, e não sabíamos fazer comparações. A pequena SATA fora a nossa primeira experiência. Ora, ao nos aproximarmos ao TWA, ficámos verdadeiramente afligidíssimos. Que coisa colossal, santo Deus do Céu! Éramos tão pequeninos. Tremíamos ainda mais e os dentes batiam ao ritmo de castanholas - ai-Jesus querido!!!

Hospedeiras com nunca vimos, lábios pintados a vermelho e falando de um modo esquisito, puseram-nos nos nossos lugares. A princípio, uma delas sentou as crianças em lugares separados do pai. Claro, ele zangou-se logo e queria, por força, que ficassem todos a sua roda. Embora não sabendo uma única palavrinha inglesa que fosse, ele fez lá os seus gestos e a hospedeira fez os seus para trás e para diante, mas por fim o pai venceu! Todos juntinhos. Ele tinha jurado a nossa mãe que tomaria boa conta de nós. A hospedeira deu às crianças tubos longos contendo no interior cores tão bonitas que formavam desenhos quando se viravam. Eram caleidoscópios. Que coisa tão linda! Nunca havíamos visto coisa semelhante em toda a nossa vida! Coisas curiosas...

Sede? Onde estava a água? Vimos e fomos lá ter um grande garrafão virado de cima para baixo. E, ao lado, vimos dois homens a levar à boca copinhos branquinhos. Ficamos entusiasmados com as bolhinhas dentro do garrafão à medida que se mexia na torneira. Os homens viram que tínhamos sede e deram-nos copinhos de água fresquinha, tão fresquinha como nunca dantes. Depois, até fomos lá ter mais vezes para beber agua, mas especialmente para nos entretermos, vendo o que nunca tínhamos visto - as bolhas a saltitar quando se tirava água da torneira! Fascinante... Quanto à comida? Cheirava mal, e o gosto ainda pior... A casa-de-banho? Ninguém sabia onde estava. Toda a nossa vida na Feteira Grande andámos na pobreza com casinha de pedra e porcos sempre cheios de fome.

Não havia nada, absolutamente nada, que se parecesse com a nossa casinha e a nossa retrete. O que fazer então? O nosso pai estava demasiadamente apertado. Os filhos também precisavam... Ele pensou que, vergonha ou não, seria ali mesmo que molharia as calças, uma vez que não havia retretes. Mas, que diabo, os americanos não têm retretes??? Subitamente, ele viu um homem a sair de uma portinha. Por curiosidade, procurando o possível e o impossível, enfiou a cabeça, notou que havia um buraco, mas coisa moderna e chique. P’ró bem ou p’ró mal, foi ali mesmo onde o alívio total se tomou história, para sempre obrigado, Senhor...

Aterrámos na Terra Nova, Canadá, umas cinco horas depois, mais ou menos, para reabastecimento de combustível. Não se saiu do avião, mas viu-se pelas janelas as coisas mais estranhas: homens vestidos com casacos grandes e grossos, com capuzes de pele na cabeça. Ainda mais estranho era toda aquela brancura. Que experiência fantástica. Pela primeira vez vimos “sino” ou neve, o que parecia tanto açúcar como farinha branca para pão...

Que fartura... Cerca de meia-hora depois, de novo no ar, direcção a Boston. As hospedeiras periodicamente perguntavam-nos se queríamos leite, mas em espanhol (que desconhecíamos por completo): “Quieres leche?” Entendíamos “quieres”, mas já “leche” não. E então abanávamos sempre a cabeça, indicando “não”. Pareciam tão estranhas as palavras que saíam da boca da hospedeira - tentando falar a nossa língua, e dizendo nada mais, nada menos do que “Quieres leche”. Ora essa! Afinal éramos Portugueses e não espanhóis. Mas, na realidade, se tivéssemos sabido que “leche” era “leite”, teríamos aproveitado todas as vezes. Teríamos adorado. Era raríssimo bebermos leite na Feteira Grande...

Finalmente aterrámos no aeroporto de Boston. Amigos da nossa mãe esperavam-nos. Tinham um grande carro verde-escuro, um Hudson. Apreciámos a beleza da neve a cair, os telhados das casas e os tejadilhos dos carros cobertos de branco. O carro movia-se vagarosamente, às vezes resvalando para um lado e para outro. Havia sete pessoas a bordo, todos em direcção a New Bedford para se encontrarem com a nossa mãe, que tinha esperado por nós por dois longos anos. Íamos para a nossa nova e primeira casa na América, bem perto do céu, no terceiro andar da 49 Phillips Avenue. Felizmente, a nossa mãe tinha dado roupa à Tia Baptista para quando a gente chegasse. De vez em quando, Anthony Ferreira, o motorista e cunhado da Tia Rosa Baptista, parava o carro e dava-nos um golito de aguardente para nos aquecermos. Não fazia muito calor no carro, e fazia muito frio lá fora. Os nossos pés estavam sempre gelados...

A nossa mãe aguardava-nos. Não podíamos esperar até chegarmos à nossa nova casa... Levou tanto tempo para chegar - uma eternidade, parecia. As ruas estavam ruins. O carro apenas se arrastava...

Já cá estamos... Da Belville Avenue, Philips Avenue abaixo, número 49. Todos saímos do carro e subimos ao terceiro andar para abraçar e beijar a nossa mãe, senhora muito linda de 34 anos de idade, lacrimosa mas feliz, braços abertos à espera por dois anos muito difíceis, sozinha na América e aprontando-se para receber a sua querida família da Feteira Grande, São Miguel, Açores, Portugal.

Muito e muito obrigado, queridíssimos Mãe e Pai. Obrigado, meu Deus! Obrigado, América! SEMPRE P’RA FRENTE!

Medford, Massachusetts, EUA

aos 15 de Janeiro de 2004

 

Primavera 1992 - 50º Aniversario
Manuel e Olivia (Sentados)
Dortina, Oliver, Adalino e Maria Olivia