Testemunhos de portugueses residentes nos EUA, uns açorianos, outros continentais, e que, num acto de coragem, aceitaram "regressar" ao Vietname e enterrar naquele livro a sensação do iminente perigo de morte.
Os autores, em entrevista à Agência Lusa, revelam o que sentiram, quando, de gravador na mão, se puseram a recolher histórias de Portugueses no Vietname, recuando no tempo para o explicar.     Mayone Dias chegou aos EUA nos últimos dias de 1961 e a guerra do Vietname começava a esboçar-se. Foi colocado como professor de Português numa escola de línguas do Exército, acabando por ter, como afirma, "oportunidade de presenciar a tensão do momento, a febril actividade com que se preparava o envio de elementos militares".
"A guerra avolumou-se. Mas foi só de longe, em cenas de televisão, que presenciei o seu desenrolar. Foi necessário que tudo terminasse, que transcorresse um período de maturação para me dar verdadeiramente conta das apocalípticas proporções do que aconteceu", relembrou.     Para isso, explicou, contribuíram inúmeros livros e filmes, a comparação com as guerras coloniais portuguesas, as conversas com alunos que tinham passado pelo Vietname e a emocionada leitura que fez de poemas de um deles, que a explosão de uma mina tinha horrivelmente mutilado.     Ao fixar residência nos Estados Unidos foi obrigado, como todos os outros emigrantes do sexo masculino, a registar-se nos serviços de recrutamento e ao fazê-lo afirma ter sentido "uma longínqua apreensão em vez de receio.     Já para lá do meio da casa dos trinta, não seria provável que os EUA me recrutassem", disse.     Por outro lado, sublinhou "a análise de situações de guerra sempre me tinha interessado, apesar de nunca ter envergado uniforme militar, ou disparado um tiro ou sequer uma espingarda nas mãos".  O mesmo não aconteceu com Adalino Cabral, o outro autor, muito mais jovem, que se ofereceu para a Força Aérea, com a esperança de ser colocado nos Açores, mas acabou no mato do Vietname, em serviço de ligação com o Exército.  Dos 16 testemunhos, 14 foram recolhidos por Adalino Cabral sem contar com o seu próprio depoimento em forma de prefácio. "Cada entrevista foi outra guerra de almas penadas. Ao contar as suas experiências, os ex-combatentes sofreram e, naturalmente, eu também", disse. No papel de entrevistador Adalino Cabral referiu ter passado por 14 guerras, reviu-se em algumas situações e de uma forma geral identificou-se com todas elas.
"Cerca de 60 mil indivíduos morreram no Vietname e mais de dois mil ainda não regressaram ao torrão dos EUA. Cerca de 200 mil suicidaram-se devido à guerra, durante ou depois do teatro de operações no Vietname. E mais de três milhões de vietnamitas perderam as vidas naquela tão vinagrosa guerra que parecia nunca ter fim", lamentou o ex-combatente.     Por isso, frisou, "para os combatentes da guerra do Vietname a luta terminou, mas a guerra continua...nas suas cabeças". Enquanto Adalino Cabral servia os EUA no Vietname, a guerra absorvia Mayone Dias pela via literária, embrenhando-o em várias narrativas sobre aquele conflito, frisando que leu quase tudo o que podia encontrar.
"Sinto-me agora à vontade com o vocabulário e as circunstancias deste conflito. A gíria dos soldados, aprendida em páginas de ficção, já soa familiar", disse.  Por isso, justifica, não estranha que esporádicos contactos com portugueses nos EUA, que combateram no Vietname, "catalisassem o interesse por fixar no papel as suas experiências e emoções".     "Foi uma guerra com presença portuguesa e onde cerca de 100 militares com sobrenomes portugueses por lá tombaram para sempre", lamentou. Nesse sentido, sublinha, "pareceu aos dois autores, residentes nos EUA há longos anos, que seria valioso reunir testemunhos de outros emigrantes portugueses que tivessem servido a pátria adoptiva na Guerra do Vietname". E para além dos traumatismos a que está sujeito qualquer combatente, os autores tentaram determinar, nestas entrevistas, o grau de identificação sentidos pelos emigrantes portugueses ao serem incorporados nas forças armadas norte-americanas, com ideais do país de acolhimento.
Segundo Mayone Dias, foi ainda objectivo perceber junto dos entrevistados como é que uma (im)possível rejeição ao recrutamento se poderia "coadunar com a lealdade à nova nação, que na maioria dos casos, uma fria ordem oficial os mandava defender". "Também tentámos saber até que ponto o sentido de dever os motivaria. E como reagiram quando se viram envoltos numa guerra distante, onde o perigo os cercava a cada momento", frisou à Lusa.  Tudo isto está no livro e, como exemplo, aquele autor aponta o caso de Amilcar Cerejo, natural de Leiria, que emigrou para a Califórnia com 16 anos e que, por heroísmo numa acção de combate no Vietname a 21 de Março de 1967, recebeu uma medalha de Bronze. Nessa acção foi ferido, tendo contudo continuado a combater.
Treze meses no Vietname foram suficientes para perceber que lá já não era português, precisava diariamente de tentar salvar a vida e matar... andava lá por andar.
Quando regressou aos EUA, o choque foi ainda maior porque, como testemunha no livro, sentia medo de si próprio, "com ideias a fugir para dentro" e as noites passadas a tentar salvar o sono. Para Mayone Dias, foi uma conversa impressionante, uma vez que a reacção daquele combatente aos eventos "revelou-se muito emocional", admitindo até ter ficado angustiado porque Cerejo pôs "muita intensidade na descrição dos sintomas do stress pós-traumático de que passou entretanto a sofrer".
Este testemunho, sublinha o autor, ilustra atitudes manifestadas por outros entrevistados, como o inesperado da morte, a "calada revolta da hostilidade com que os antigos combatentes foram muitas vezes recebidos de regresso aos EUA e a impotência perante ordens insensatas dos superiores".
"Também me impressionou o sentido de dever que os entrevistados expressaram.
Foram para a guerra virgens de qualquer ideologia, sentiram a obrigação de cumprir o que o novo país lhes pedia, obedeceram como antes haviam obedecido ao patrão. Era mais um trabalho que havia que fazer", disse à Lusa.  Todos os entrevistados são, na sua maioria, oriundos de ambientes rurais, chegados à América do Norte na adolescência e apanhados pela guerra do Vietname entre os 19 e os 22 anos.
De volta todos refizeram a sua vida, vários terminaram cursos universitários, um obteve doutoramento, mas isso não exclui que o quanto ainda sofrem de stress pós--traumático de guerra e isso está patente no livro. Uma obra que, diz Mayone Dias, não é sua: "tudo o que fiz foi empregar tesoura e cola para a organizar. O meu trabalho foi sobretudo transcrever, traduzir as entrevistas, que foram feitas em inglês, e organizar as notas". O livro levou cerca de dez anos até ficar pronto, tendo encalhado numa editora das Caldas da Rainha que, refere, "nunca atou nem desatou, até que decidimos contactar a Peregrinação Publications, que agora o vai publicar". Para além da publicação, a editora está também a preparar um convívio de veteranos lusos de todas as guerras, para 18 de Novembro de 2000, no Centro Comunitário Amigos da Terceira, em Rhode Island. Durante esse convívio será então lançado o livro Portugueses na Guerra do Vietname, no fundo uma colectânea de 16 conversas ilustradas com mais de 60 fotografias. AFO Lusa/Fim
Portuguese Studies Review: Volume 7, Number 1, the 1998 issue has been sent to all subscribers. It is published by the International Conference Group on Portugal. The senior editor is Professor Douglas L. Wheeler, Ph.D. For more information on subscription call (603) 862-3018 or Fax (603) 868-6935. This issue includes a number of interesting articles by several authors.

 

 

 

 

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  • Updated:
    November 18, 2011